A história de um índice Bolsista

Origem e breve história de um dos mais conhecidos indices bolsistas do Mundo.

Sérgio Paulo Candeias

1/20/20265 min read

Imagina que estás em 1884, em Nova Iorque: o barulho das rotativas, o cheiro a tinta fresca e uma obsessão coletiva com… ferrovias. Nesse cenário, nasce a ideia que hoje aparece em todos os noticiários financeiros: o índice bolsista.

​A história começa numa sala cheia de papéis

Charles Dow queria uma forma simples de responder a uma pergunta que continua atual: “o mercado está a melhorar ou a piorar?”. Em vez de descrever empresa a empresa, ele fez algo quase óbvio (mas revolucionário): pegou em 11 ações, sobretudo de empresas ferroviárias, e criou uma média que dava um retrato rápido do setor mais importante da época.

​Esse primeiro “termómetro” não era o Dow Jones que hoje conhecemos, mas foi a semente: transformar muita informação dispersa num único número fácil de acompanhar.

Quando um número se transforma numa capa de Jornal.

Em 1896, a ideia amadurece e ganha um nome histórico: o Dow Jones Industrial Average. A partir daí, o mercado passa a ter um “placar” diário, como se fosse um resultado de jogo: sobe, desce, empata — e toda a gente entende a mensagem mesmo sem conhecer todos os jogadores.

​Este detalhe é importante: um índice não é “o mercado inteiro”, é um retrato do mercado através de uma seleção e de uma regra de cálculo.

O truque por trás do espelho (como se calcula um índice)

Aqui entra a parte que muda a forma como se lê um índice: a metodologia. No caso do Dow Jones, a lógica histórica é price-weighted (ponderado pelo preço), ou seja, ações com preço mais alto acabam por influenciar mais o índice, mesmo que a empresa não seja a maior em valor de mercado.

​Já noutros índices muito usados, como o S&P 500, a lógica típica é ponderação pela capitalização bolsista (muitas vezes ajustada ao free float), o que tende a dar mais peso às empresas “maiores” no mercado. E como as empresas mudam e o mercado evolui, os índices são revistos e rebalanceados periodicamente para continuarem a representar o universo a que se propõem.

Do “mercado americano” ao “mercado em piloto automático”

Em 1957, surge um marco: o S&P 500 passa a ser publicado como um novo grande barómetro do mercado dos EUA e, na altura, representava mais de 90% do valor das ações da NYSE detidas por investidores (segundo a descrição histórica citada). Um pormenor delicioso (e muito atual): a criação desse “novo gauge” foi possível pela combinação entre ticker e computador, ou seja, tecnologia a tornar a medição do mercado mais escalável.

​Décadas mais tarde, essa mesma lógica abre caminho à democratização via ETFs, que replicam índices e permitem que milhões de investidores “comprem o mercado” sem escolher ações uma a uma. E com a digitalização, multiplicam-se índices temáticos e outras variações — tecnologia, energias limpas, ESG — como se o mercado ganhasse playlists para cada estilo de investimento.

​Onde entram os índices no teu dia a dia (mesmo sem dares por isso)

Os índices servem para medir rapidamente o desempenho do mercado e funcionar como referência (benchmark) para comparar fundos e carteiras. Também são a base de produtos financeiros muito usados, como ETFs e derivados (futuros e opções), que permitem exposição, cobertura de risco e estratégias mais avançadas.​

E há um efeito psicológico e económico real: quando um índice grande mexe muito, mexe com confiança, decisões e narrativas — porque o “placar” influencia a forma como as pessoas interpretam o estado da economia.​

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Numa terça‑feira normal, em Lisboa, a Susana começa o turno cedo como segurança na portaria do nosso edifício. Entre entregas, crachás esquecidos e o vaivém de gente apressada, vai espreitando as notificações no telemóvel quando há um minuto de calma: “PSI fechou em alta”.

Não é trader, não vive disto, mas aquela frase aparece tantas vezes que já lhe soa a boletim meteorológico: se sobe, “está sol”; se cai, “vem tempestade”. E, ali sentada atrás do balcão, começa a perguntar-se: “Isto afinal quer dizer o quê para mim?”

“PSI… mas eu nem sei o que isso é”

Numa pausa mais tranquila, quando o átrio fica vazio, a Susana pesquisa. Descobre o básico: o PSI é um índice — um número que resume o desempenho de um conjunto das principais empresas cotadas em Portugal.

Aquilo dá-lhe um certo alívio. Percebe que “PSI” não é uma empresa específica nem uma ação que se compra como quem escolhe um produto numa prateleira. É mais um painel de instrumentos: várias empresas lá dentro, uma leitura final cá fora.

Portugal faz parte do mapa.

Ao fim da tarde, chega um colaborador da gestão de ativos, que ali aguarda por outro colega, e a Susana lança a pergunta, “sem cerimónia”, como quem puxa conversa para passar o tempo:

“Ó Paulo, isto do PSI… se sobe ou desce, é suposto eu fazer alguma coisa?”

O Paulo responde com outra pergunta, simples e certeira:

Susana, deixa-me perguntar-te de outra maneira: tu tens o dinheiro investido em algo que siga o PSI… ou estás só a ver o ‘sentir’ o mercado?

E ali, na portaria, no meio de um tema que parece distante, a Susana percebe o ponto: um índice ajuda a medir o mercado e a dar contexto, mas não é automaticamente um comando de ação. Além disso, Portugal é só uma parte do mapa.

A descoberta: “Dá para investir num índice?”

Nessa noite, já em casa, a Susana encontra uma palavra que aparece repetida em vídeos e artigos: ETF. E descobre a ideia que lhe soa quase “justa” para quem não tem tempo nem vontade de escolher ações: existem ETFs que procuram replicar um índice, permitindo investir num cabaz inteiro em vez de tentar acertar numa empresa só.

Para ela, isto muda o jogo. Não precisa de “ser especialista” para ter exposição a um mercado; precisa é de entender que índice quer seguir — e porquê.

No dia seguinte, de volta à portaria, a notificação reaparece: “PSI fecha em alta”. Mas agora a Susana olha para aquilo de outra forma. O PSI continua a ser a bússola de Portugal — útil para perceber o clima do mercado nacional — mas já não é “o mundo todo”.

E é aqui que a história dá o salto: ela começa a ver o PSI como ponto de partida (o que está perto e é familiar) e os ETFs como a ponte para diversificar, com mais método e menos ansiedade.

A partir daí, a Susana deixa de ler manchetes como ordens e passa a lê‑las como contexto. E, aos poucos, a portaria vira o seu “observatório”: entre entradas e saídas, vai aprendendo que investir não é reagir ao barulho do dia — é construir um plano com ferramentas simples, como índices e ETFs.